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Era uma vez......



A Espera

“A pior e a melhor sensação do mundo é a espera.”, pensava Ela, limpando as lágrimas do rosto na sala de espera do hospital. Pra variar, esperava.
Não havia nada a dizer. Nenhuma melhora. Nenhuma piora. A mãe não estava saudável, nem doente. Nem dormindo, nem acordada. Não estava nada. E o que se poderia fazer?... Apenas esperar.
Ela sentia seus dedos formigarem, suas entranhas se torcerem. O tempo inteiro. Sua mãe poderia “não estar nada”. Mas em compensação, Ela estava tudo. Estava nervosa, estressada, com fome, cansada e, principalmente, aterrorizada.
E exatamente por isso, estava queimando seu tempo de espera pensando sobre esperar. Era ridículo, Ela sabia. Porém, era só o que lhe restava. Já havia folheado revistas, andado pelas salas, tomado café, dado uma volta lá fora, chorado... Nenhuma dessas coisas tinha feito o tempo passar mais rápido. Ele se arrastava.
Tentou lembrar das coisas boas de esperar. Como por exemplo, esperar um filho. Esperar um presente. Esperar uma festa. Esperar o final da piada. Esperar a lasanha sair do forno. Aquelas esperas eram deliciosas. Enchiam o peito de vontade, de cócegas, uma risadinha ansiosa. Muitas vezes, essas risadinhas eram mais tocantes do que o acontecimento em si.
A espera de hoje não era dessas. Era terrível. Fazia-a olhar duzentas vezes para o relógio na parede, cruzar e descruzar as pernas sem parar, sentir um aperto que não tinha fim e até mesmo folhear a revista Caras. Era terrível mesmo. O pior de tudo era que nada podia ser feito a respeito.
Já era madrugada. A solidão naquela sala de espera já estava começando a ficar incômoda, quando Remorso arrastou-se pra dentro da sala e sentou silenciosamente ao lado Dela. Sua presença só foi notada quando ele abriu a boca (que tinha um sorriso irônico permanente) para sussurrar:
- Você nunca disse, não é?
Ela saltou da cadeira. Não esperava outra presença ali além da dela. Ainda mais dizendo uma verdade dessas. Ela realmente nunca havia dito. Sempre achava que teria mais tempo, mas agora, talvez não tivesse.
- Não... nunca disse.
- Talvez nunca diga. – Remorso disse, apoiando-se num dos cotovelos enquanto a olhava de perto. – sabia? Talvez ela morra sem saber.
Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A espera era para que a mãe saísse da cama, e não para que ela morresse. Ou não morresse. Sei lá! Isso não devia ser uma possibilidade!!! Suspirou. Abriu a boca. Fechou. Abriu. Fechou. E não conseguiu dizer nada a Remorso.
- Você também é muito chata... – dizia Remorso, enquanto acariciava os cabelos Dela – Fez tanta coisa errada, foi tão estúpida, deixou que ela te conhecesse tão pouco.. E agora você está aí, na maior cara de pau, “esperando”. Esperando o que, palhaça? Quem está esperando é ela, lá na UTI, que nunca ouviu da sua boca o que devia ter ouvido...
Remorso estava certo. E agora, que os olhos Dela estavam embaçados pelas lágrimas, ela reparava o quanto ele era grande e gordo.
- Você nunca pediu desculpas. Nunca riu das piadas dela. Nunca aceitou suas brincadeiras. Você sempre agiu feito uma velha perto dela. Aliás..não está sendo muito diferente agora.
Ela se encolheu no banco macio da sala de espera. Gostaria que Remorso calasse a boca. Saísse daquela sala. A deixasse sozinha como estava antes. Sentia-se tão sem energias que não conseguia nem mesmo espantar Remorso dali. Fechou os olhos. Remorso continuou a falar, lembrando de todas as coisas que Ela não disse, não fez. Todos os abraços e beijos que Ela não deu. Todos os sorrisos que Ela não correspondeu. Mesmo assim, Ela fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, segundos depois, a sala de espera estava cheia. Não era só Remorso quem falava ininterruptamente. Memórias, Terror, Esperança, Desespero, Expectativa.. Eram vários, e Ela nem mesmo conseguia identificar todos. Só que estavam lá, e falavam todos ao mesmo tempo, apontavam o dedo em sua direção.
Tentou ouvi-los. Mas eles falavam demais, Ela não conseguia distinguir a fala de cada um deles. O que tornava a cena mais irritante era o fato de que, na verdade, eles eram Ela. E o mais irritante: a Ela, só restava esperar.


Escrito por Fada dos Contos às 03h00
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Flautando suavemente pelos vales selvagens,

Tocando canções de agradável melodia,

Eu vi um menino entre as densas nuvens,

E para mim ele falou, enquanto sorria:

“Toque uma música sobre um carneiro!”

Assim, toquei com imensa alegria.

“Toque, toque de novo, parceiro!”

Então, eu toquei, e ele chorava e ouvia.

“Larga teu alegre instrumento, flautista!

Canta tuas canções de felicidade!”

Aceitando, cantei tal qual um artista,

E, ao ouvir-me, ele chorou com serenidade.

“Senta, flautista! Senta e escreve!

Faça um livro que todos possam ler!”

E ele desapareceu como neve sobre neve.

Sozinho, então , pensei sobre o que fazer.

“De um pedaço de bambu fiz uma pena,

Para a água cristalina tingir,

E escrevi canções de alegria serena

Que qualquer criança gostaria de ouvir.”

 

                                                                                             William Blake.

 



Escrito por Fada dos Contos às 16h15
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LUTA

O Guerreiro está caído no chão. Exausto. Os cachos de seus cabelos e sua barba, encharcados com o suor dos seus longos anos de luta. A cabeça está baixa. Os olhos, cheios de lágrimas. Não entende se a luta acabou ou se ele perdeu. Está profundamente triste.

            Sinto sua dor como se fosse a minha. Não são apenas seus músculos que doem, é também seu coração. E o meu pulsa no mesmo ritmo que o dele, enquanto o olho cabisbaixo do lado de sua espada quebrada. Não sei como ajudá-lo. Nem mesmo sei se ele percebeu que estou aqui. Mesmo assim ficarei, com as mãos estendidas, prontas para ampará-lo.

            Posso imaginar a tristeza. Posso imaginar a sensação de fracasso. Quero tocá-lo, abraçá-lo, ajudá-lo, mas sou apenas uma observadora hoje. Sei de sua luta há muito tempo, presenciei boa parte dos combates. É uma pena que eu só tenha atrapalhado quando tentei ajudar.

            Aproximo-me agora, mesmo sem saber se ele percebe minha presença, e sussurro, em seu ouvido:

            “Meu querido...meu irmão...Você não perdeu, pois sempre foi vitorioso. Sua espada está quebrada, sua armadura perfurada, seu rosto uma máscara de dor. Mesmo assim, sei que se levantará... para encarar esta mesma batalha ou – quem sabe!- outras. Saiba que não está sozinho. Minha mão, minha espada e meu escudo estarão sempre aqui para ajudar quando chamados. O coração, mesmo quando não o chama. Amo-te.”

            E aqui permaneço. Ao seu lado. Em silêncio.

Escrito por Fada dos Contos às 00h14
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Despedida..........(ou Recomeço?)

            Aqui estou eu, depois de muito tempo, usando a internet para desabafar.

            Estou num momento limite da minha vida. Sério. Ela precisa urgente de uma reforma. Nela tem pessoas que não deveriam mais estar.

            Neste momento eu estou parando para me questionar: “POR QUE DIABOS EU ME IMPORTO????”. Ultimamente eu tenho ficado muito triste por coisas ou pessoas que não valem a pena. Não valem mesmo. Aliás, eu sou PRO em me aproximar e me importar com quem não vale a pena. O limite já passou. Hora de mudar.

            Existem pessoas que TODA VEZ (toda vez MESMO) que eu me aproximo, eu me ferro. Não preciso fazer nada, mas me ferro. O que é que eu tenho na cabeça? Por que eu me aproximo dessas confusões ambulantes? Ah, Nathália, pelos deuses, renove. Não se pode ajudar quem não quer ser ajudado e nem torcer por quem não quer a sua torcida.

            Acho que finalmente estou aprendendo isso.

            Eu sei o que está passando pela sua cabeça agora. “...mas Fada dos contos.... isso NÃO É um conto!” E eu te respondo: “É sim, é a terrível e sem graça comédia da minha vida.”. Até cinco minutos atrás eu era uma pessoa que se importava demais. Agora eu sou uma pessoa que está pouco se fodendo.

            Eu valorizo meus amigos. Sempre valorizei e sempre vou valorizar. Mas agora SÓ valorizo quem me valoriza. Portanto, se você ainda me quer como amiga, seja esperto(a) e demonstre isso. Se não, ta fora. Eu sou uma garota legal, posso fazer novos amigos (na verdade, já estou fazendo – e tenho- muitos amigos). E vou sobreviver também.

            O fato é que muita coisa que eu tenho passado está ficando incrivelmente repetitivo. NEGATIVAMENTE repetitivo. Não dá mais pra conviver com uma dor que passa só por alguns segundos. Eu não mereço isso. Eu mereço ter pessoas do meu lado, pessoas que valem a pena, que torçam por mim, sem nenhuma conseqüência doentia.

            Enfim, essa coisa toda é só para dar dois recados:

            Aos que deixo para trás, deixo agora e com bastante dor. Amo-os TODOS. Muito. Só que me amo mais do que amo vocês, e é por pura sobrevivência que eu me afasto. Estou aqui, caso precisarem, mas não irei atrás. Já cansei deste papel.

            Aos que ficam e chegam, bem-vindos. Também amo vocês e obrigada por chegarem com um sorriso tão aberto.

           



Escrito por Fada dos Contos às 23h39
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CAVALARIA - Parte VIII

Galaad voltou do banheiro. Ela lhe deu o saco de papel e o Santo Graal. Daí, ficou nas pontas dos pés e o beijou no rosto.

            - Você é um bom moço – disse ela. – Cuide-se.

            Ele a abraçou e ela o enxotou para fora da cozinha até a porta dos fundos e a fechou atrás dele. Em seguida, serviu-se de outra xícara de chá e chorou mansamente num Kleenex, enquanto ouvia o som dos cascos ecoando pela Hawthorne Crescent.

            Na quarta-feira, a Sra. Whitaker ficou em casa o dia inteiro.

            Na quinta-feira, foi até a agência do correio receber sua pensão. Depois, parou na Loja Oxfam.

            A mulher no caixa era outra, que ela não conhecia.

            - Onde está a Marie? – perguntou a Sra. Whitaker.

            A mulher do caixa, que tinha cabelos grisalhos azulados de tintura e usava óculos de aro de ouro, sacudiu a cabeça e deu os ombros.

            - Foi embora com um jovem – disse -, a cavalo. Tsc, tsc. Veja só. Era para eu estar na loja Heathfield esta tarde. Tive de pedir ao meu Johnny para me trazer aqui, enquanto procuramos outra pessoa.

            - Ah – disse a Sra. Whitaker. – Bem, que bom que ela encontrou um rapaz para si.

            - Talvez seja bom para ela – disse a senhora do caixa. – Mas era para alguém estar na Heathefield esta tarde.

            Na prateleira dos fundos da loja, a Sra. Whitaker encontrou um velho recipiente de prata sem lustro, com um bico comprido. Custava 60 pence, de acordo com a pequena etiqueta de papel colada ao lado. Parecia um pouco com um bule de chá comprido e achatado.

            Ela apanhou um romance da Mills & Boon que ainda não tinha lido. Chamava-se Seu amor singular. Levou o livro e o recipiente de prata até a mulher do caixa.

            - Sessenta e cinco pence, querida. – disse a mulher pegando o objeto de prata e observando-º - Velharia curiosa, não? Chegou esta manhã. – Havia uma inscrição entalhada do lado em letras chinesas e uma elegante alça em formato de arco. – Algum tipo de lata de óleo, suponho.

            - Não, não é uma lata de óleo – disse a Sra. Whitaker, que sabia exatamente o que era. – É uma lâmpada.

            Havia um pequeno anel de metal, sem ornamentos, amarrado na alça com barbante marrom.

            - Na verdade – disse a Sra. Whitaker -, pensando bem, acho que vou comprar só o livro.

            Ela pagou os cinco pence pelo romance e colocou a lâmpada de volta onde a tinha achado, no fundo da loja. Afinal de contas, pensou a Sra. Whitaker enquanto voltava a pé para casa, não havia mesmo onde colocar aquela lâmpada.

 - Não, não é uma lata de óleo – disse a Sra. Whitaker, que sabia exatamente o que era. – É uma lâmpada.

            Havia um pequeno anel de metal, sem ornamentos, amarrado na alça com barbante marrom.

            - Na verdade – disse a Sra. Whitaker -, pensando bem, acho que vou comprar só o livro.

            Ela pagou os cinco pence pelo romance e colocou a lâmpada de volta onde a tinha achado, no fundo da loja. Afinal de contas, pensou a Sra. Whitaker enquanto voltava a pé para casa, não havia mesmo onde colocar aquela lâmpada.



Escrito por Fada dos Contos às 03h49
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CAVALARIA - Parte VII

A cozinha encheu-se – quase imperceptível e magicamente – do aroma de frutas do verão, de framboesas, pêssegos, morangos e groselhas. De um lugar muito longe, ela ouviu vozes distantes que se elevavam no ar em canções e músicas longínquas.

            - É uma das maçãs das Espérides – disse Galaad em voz serena. – Uma mordida cura qualquer doença ou ferida, não importa a gravidade. Uma segunda restaura a beleza e a juventude; e uma terceira concede a vida eterna.

            A Sra. Whitaker lambeu o líquido viscoso da sua mão. Tinha gosto de vinho refinado.

            Então, súbito, tudo voltou a ela – como era ser jovem: ter um corpo firme e esbelto que faria tudo o que desejasse; descer correndo uma alameda campestre pela simples alegria de correr como uma menina mal-comportada; de ter homens lhe sorrindo apenas por ser ela mesma e estar feliz por isso.

            A Sra. Whitaker olhou para Sir Galaad, o mais gracioso entre todos os cavaleiros, sentado belo e nobre na sua pequena cozinha.

            Ela prendeu a respiração.

            - E isto é tudo o que eu te trouxe – disse Galaad. Também não foi fácil consegui-los.

            A Sra. Whitaker colocou a fruta de rubi sobre a mesa da cozinha. Ela olhou a Pedra Filosofal, o Ovo da Fênix e a Maçã da Vida. Então, foi para a sala de estar e olhou o consolo da lareira – o cãozinho basset chinês, o Santo Graal e a fotografia em preto e branco do seu finado marido, Henry, sem camisa, sorrindo e tomando um sorvete, quase quarenta anos antes.

            Ela voltou para a cozinha. A chaleira tinha começado a apitar. Pôs um pouco de água fervente no bule de chá, fê-la girar lá dentro e jogou-a fora. Depois colocou três colheres cheias de chá no bule e o resto da água. Fez tudo isso em silêncio.

            Então voltou-se para Galaad e olhou para ele.

            - Guarde essa maçã – disse a Galaad com firmeza. – Você não deveria oferecer uma coisa dessas a senhoras de idade. Não é adequado.

            Ela fez uma pausa.

            - Mas ficarei com os outros dois – prosseguiu após um momento de reflexão. – Eles ficarão bem no consolo da lareira. E dois por um é justo, ou eu não sei o que é ser justo.

            Galaad sorriu exultante. Ele colocou a maçã de rubi na sua algibeira de couro. Daí, ajoelhou-se e beijou a mão da Sra. Whitaker.

            - Pare com isso – disse a Sra. Whitaker. Ela serviu duas xícaras de chá, retiradas da sua melhor porcelana chinesa, usada só em ocasiões especiais.

            Eles se sentaram, e tomaram o chá em silêncio.

            Quando acabaram, foram até a sala de estar.

            Galaad fez o sinal-da-cruz e pegou o Graal.

            A Sra. Whitaker arrumou o Ovo e a Pedra onde o Graal tinha estado. O Ovo ficava caindo para um lado, e ela o apoiou no cachorrinho de porcelana chinesa.

            - Ficou muito bom – Disse a Sra. Whitaker.

            - Posso dar alguma coisa para você comer antes de partir? – perguntou ela.

        - Um bolo de frutas – disse ela. – Pode ser que você não queira agora, mas vai me agradecer daqui a algumas horas. E talvez seja melhor ir ao banheiro. Agora dê-me isso aí que eu embrulho.



Escrito por Fada dos Contos às 03h47
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CAVALARIA - Parte VI

Ela o levou ao quarto de despejo, no alto da casa. Ele tirou todas as velhas malas, assim a senhora conseguiu alcançar o guarda-louças que jazia no fundo. Estava tudo muito empoeirado. Ela o manteve lá em cima a maior parte da tarde, tirando coisas do lugar, enquanto espanava o pó.

            Galaad tinha um corte no rosto e um dos seus braços estava um pouco tenso.

            Conversaram um pouco enquanto ela tirava o pó e faxinava. A Sra. Whitaker contou-lhe sobre seu finado marido, Henry; sobre como o seguro de vida tinha pago o saldo da casa; sobre como tinha conseguido todas aquelas coisas, mas não tinha ninguém para deixá-las, ninguém exceto Ronald, cuja esposa só gostava de coisas modernas. Contou como conhecera Henry durante a guerra, quando ele estava no ARP e ela não tinha fechado as cortinas de defesa antiaérea da cozinha; sobre os bailes de seis pence a que iam na cidade; sobre a mudança do casal para Londres quando a guerra acabou e onde ela bebera vinho pela primeira vez.

            Galaad contou à Sra. Whitaker sobre sua mãe, Elaine, que era leviana e não tão boa quanto deveria ter sido e alguma coisa sobre uma bruxa a expulsar; sobre seu avô, o Rei Pelles, que era bem- intencionado, mas um tanto confuso; sobre sua adolescência no Castelo de Bliant, na Ilha Jubilosa; sobre seu pai, a quem ele conhecia como “Lê Chevalier Mal Fet”, que, em maior ou menor grau era completamente louco e que, na verdade, era Lancelot du Lac, o maior de todos os cavaleiros, disfarçado e destituído de suas faculdades mentais; e sobre seus dias como um jovem escudeiro em Camelot.

            Às cinco horas, a Sra. Whitaker examinou o quarto de despejo e decidiu que estava como queria. Então, ela abriu a janela do quarto para arejar e eles desceram para a cozinha, onde pôs água numa chaleira para ferver.

            Galaad sentou-se à mesa da cozinha. Abriu a algibeira de couro que trazia na cintura e tirou de dentro uma pedra redonda e branca. Era mais ou menos do tamanho de uma bola de críquete.

            - Minha dama – disse ele -, isto é para ti em troca do Cálice.

            A Sra. Whitaker pegou a pedra, que era mais pesada do que parecia, e a colocou contra a luz. Era de uma cor Láctea translúcida e, por dentro, salpicada de prata rutilante; ela lampejava na luz do sol de fim de tarde. Era quente ao toque.

            Então, enquanto a segurava, uma estranha sensação subiu pelo seu corpo – lá no fundo, sentiu calma e paz. Serenidade, era esta a palavra para a sensação. Sentiu-se serena. Relutantemente, colocou a pedra sobre a mesa.

            - É muito bonita – disse.

            - Esta é a Pedra Filosofal, que o nosso antepassado Noé pendurou na Arca para que houvesse luz, quando luz não havia. Pode transformar metais não-preciosos em outro e certamente possui outras propriedades – Galaad narrou orgulhoso. – E não é tudo. Veja. – Ele tirou um ovo da bolsa de couro e lhe deu.

            Era do tamanho de um ovo de ganso, de uma cor negra brilhante, mosqueado de escarlate e branco. Quando a Sra. Whitaker o tocou, o cabelo de sua nuca de eriçou. Sua primeira impressão foi de um calor e de uma liberdade inacreditáveis. Ela ouviu o estalar de fogueiras distantes e, por uma fração de segundo, pareceu se sentir muito acima do mundo, precipitando-se e mergulhando com asas de chamas. Ela colocou o ovo na mesa, ao lado da Pedra Filosofal.

            - Este é o ovo da Fênix – disse Galaad – Vem da distante Arábia. Um dia, eclodirá no próprio Pássaro Fênix;e, quando isso acontecer, a ave fará um ninho de fogo, botará seu ovo e morrerá para renascer das chamas, numa era posterior deste mundo.

            - Achei que fosse isso – disse a Sra. Whitaker.

            - E por último, senhora – anunciou Galaad -, trouxe-lhe isto.

            Ele tirou algo da bolsa e lhe deu. Era uma maçã, aparentemente esculpida de um único rubi, num pedúnculo de âmbar.

Um pouco tensa, ela a pegou. Era macia de se tocar – enganosamente -, seus dedos a machucaram e um suco de cor de rubi escorreu da maçã pela mão da Sra. Whitaker.

 



Escrito por Fada dos Contos às 03h38
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CAVALARIA - Parte V

A Sra. Whitaker fez sanduíches de requeijão com pepino para ele levar na sua jornada de volta e os embrulho em papel à prova de gordura. Deu-lhe também uma maçã para Grizzel. Ele deu a impressão de estar muito agradecido com as duas oferendas.

            Ela se despediu deles com acenos.

            Naquela tarde, foi de ônibus ao hospital ver a Sra. Perkins, que ainda estava descadeirada, coitada. A Sra. Whitaker levou-lhe bolo de frutas caseiro, apesar de ter deixado de lado as amêndoas da receita, pois os dentes da Sra. Perkins não eram mais o que costumavam ser.

            Assistiu a um pouco de televisão aquela noite e foi cedo para a cama.

            Na terça-feira, o carteiro tocou a campainha. A Sra. Whitaker estava em cima, no quarto de despejo, fazendo faxina e, descendo cada degrau vagarosa e cuidadosamente, não chegou em baixo a tempo. O carteiro tinha deixado uma mensagem dizendo que tentara entregar um pacote, mas não havia ninguém em casa.

            A Sra. Whitaker suspirou.

            Ela colocou a mensagem na sua bolsa e foi até o correio.

            O pacote era da sua sobrinha Shirelle, de Sidnei, Austrália. Continha fotografias do marido dela, Wallace e das duas filhas, Dixie e Violet, e uma concha enrolada em lã de algodão.

            A Sra. Whitaker tinha várias conchas ornamentais no seu quarto. A sua preferida tinha uma vista das Bahamas pintada com esmalte. Era um presente da sua irmã, Ethel, que morrera em 1983.

            Colocou as fotografias e a concha na sua sacola de compras. Então, aproveitando que estava naquela área, parou na Loja Oxfam a caminho de casa.

            - Oi, Sra. W. – disse Marie.

            A Sra. Whitaker fitou-a. Marie estava usando batom (provavelmente não o melhor tom para ela, nem particularmente bem aplicado, mas, pensou a Sra. Whitaker, isso viria com o tempo) e uma saia bem elegante. Era, sem dúvida, um grande progresso.

            - Olá, querida – disse a Sra. Whitaker.

            - Um homem veio aqui semana passada, perguntando sobre aquela coisa que a senhora comprou. Aquela pequena taça de metal. Eu lhe disse onde achá-la. A senhora não se importou, né?

            - Não, querida – disse a senhora Whitaker. – Ele me encontrou.

            - Ele era mesmo um sonho. Um sonho de verdade – suspirou Marie, tristonha. – Eu poderia fazer qualquer coisa por ele. E tinha um cavalo grande e tudo o mais – concluiu Marie. Ela estava de pé com as costas retas, notou a Sra. Whitaker, aprovando.

            Na estante, a Sra. Whitaker encontrou um novo romance da Mills & Boon – Sua paixão majestosa – apesar de não ter acabado de ler os dois que ela comprara na sua última visita.

            Pegou o exemplar do ­Romance e lenda da cavalaria e abriu. Cheirava a mofo. No alto da primeira página, estava caprichosamente escrito à mão com tinta vermelha EX LIBRIS FISHER.

            Ela o colocou de volta onde o tinha encontrado.

            Quando chegou em casa, Galaad a estava esperando. Ele dava voltas em Grizzel com as crianças da vizinhança na garupa, rua acima e abaixo.

            - Estou feliz que você esteja aqui – disse ela. – tenho algumas malas que preciso mudar de lugar.

           



Escrito por Fada dos Contos às 03h34
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CAVALARIA - Parte IV

Ela colheu  um pouco de salsa para a salada. Ouviu, então, alguém tossir às suas costas. Galaad estava lá, de pé, alto e belo, sua armadura brilhando no sol da manhã. Segurava em seus braços um embrulho comprido, envolto em couro untado à óleo.

- Estou de volta – disse ele.

            - Bom – respondeu ela, erguendo-se com certa lentidão -, já que está aqui, você bem que podia me ajudar.

            - Chá ou limonada? – perguntou ela.

            - O que quer que tu estiveres tomando – disse Galaad.

            A Sra. Whitaker pegou uma jarra da sua limonada caseira da geladeira e mandou Galaad ir buscar um ramo de hortelã no quintal. Escolheu dois copos longos, lavou a hortelã cuidadosamente e colocou algumas folhas em cada recipiente. Então, serviu a limonada.

            - Seu cavalo está lá fora? – perguntou ela.

            - Sim, seu nome é Grizzel.

            - E suponho que você tenha feito uma longa viagem.

            - Sim, muito longa.

            - Sei – disse a Sra. Whitaker. Ela pegou uma vasilha de plástico azul debaixo da pia e a encheu de água até a metade. Galaad levou-a para fora, até Grizzel. Ele esperou enquanto o cavalo bebia e trouxe a vasilha vazia de volta à Sra. Whitaker.

            - Bom – disse ela -, suponho que você ainda esteja à procura do Graal.

            - Deveras, ainda estou a procurar o Cálice Sagrado – disse ele. Pegou o embrulho de couro no chão, colocou-o sobre a toalha de mesa e o desembrulhou. – Por ele, ofereço-te isto.

            - É muito linda – disse a Sra. Whitaker ambiguamente.

            - Esta – disse Galaad – é a espada Balmung, forjada por Wayland, o Ferreiro, no amanhecer dos tempos. Sua gêmea é Flamberge. Quem a possui não pode ser conquistado na guerra e é invencível em batalha. Quem a empunha é incapaz de atos covardes ou ignóbeis. No botão do seu punho, está colocada a sardônica Bircone, que protege o dono do veneno derramado no vinho, ou na cerveja, e da traição de amigos.

            A Sra. Whitaker examinou a espada.

            - Deve ser muito afiada – disse ela depois de um tempo.

            - É capaz de cortar em dois um fio de cabelo que está a cair. Na verdade, poderia cortar um raio de sol – proferiu Galaad orgulhoso.

            - Bom, então talvez você devesse guardá-la – disse a Sra. Whitaker.

            - Tu não a queres? – Galaad parecia desapontado.

            - Não, obrigada – disse a Sra. Whitaker. Ocorreu-lhe que o seu finado marido, Henry, teria gostado muito dela. Ele a penduraria na parede do seu estúdio ao lado da carpa empalhada que havia pescado na Escócia e a mostraria às visitas.

            - Galaad enrolou o couro untado com óleo ao redor da espada Balmung e o amarrou com uma corda branca.

            E ficou sentado lá, desconsolado.           

           



Escrito por Fada dos Contos às 03h31
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CAVALARIA - Parte III

Foram, então, para a cozinha. Ela preparou uma xícara de chá para Galaad e, depois, levou-o para a sala de estar.

            Galaad viu o Cálice no consolo da lareira e se ajoelhou sobre uma perna. Colocou cuidadosamente a xícara no tapete castanho avermelhado. Uma haste de luz entrou através da cortina de filó e pintou seu rosto, pleno de reverência, com o dourado do sol, transformando seu cabelo num halo de prata.

            - É verdadeiramente o Santo Graal – disse ele muito pausadamente. Piscou os olhos claros três vezes, bem rápido, como que para reter as lágrimas, e baixou a cabeça como se estivesse orando em silêncio.

            Galaad levantou-se novamente e se dirigiu à Sra. Whitaker:

            - Bondosa dama, Guardiã do Mais Sagrado dos Sagrados, permite-me deixar este lugar com o Cálice Abençoado, findando assim minha jornada e cumprindo minha missão.

            - Como? – disse a Sra. Whitaker.

            Galaad caminhou até ela e colocou suas velhas mãos nas suas:

            - Minha busca terminou – explicou. – O Cálice Sagrado está finalmente ao meu alcance.

            A Sra. Whitaker franziu os lábios:

            - Você pode pegar a xícara e o pires do chão, por favor? – disse ela.

Galaad recolheu a porcelana caída, desculpando-se.

- Não, acho que não – disse a Sra. Whitaker. – Gosto dele onde está, entre o cachorro e a fotografia do meu Henry.

- É ouro que tu queres? É isso? Posso trazer-te ouro...

- Não – disse a Sra. Whitaker. – Não quero ouro algum, obrigada. Simplesmente não estou interessada.

Ela acompanhou Galaad até a porta da frente.

- Prazer em conhecê-lo – disse ela.

O cavalo do jovem estava com a cabeça inclinada sobre a cerca do jardim, mordiscando as palmas-de-santa-Rita da senhora. Algumas crianças da vizinhança observavam-no da calçada.

Galaad pegou alguns torrões de açúcar do alforje e mostrou às crianças mais corajosas como alimentar o cavalo, com as mãos espalmadas para oferecer o açúcar. As crianças riram. Uma das meninas mais velhas acariciou o focinho do animal.

Galaad saltou sobre a sela num movimento fluídico. Então, o cavalo e cavaleiro afastaram-se a trote, descendo a Rua Hawthorne Crescent.

A Sra. Whitaker observou-os até sumirem de vista, deu um suspiro e voltou para casa.

O fim de semana foi tranqüilo.

No sábado, ela foi de ônibus até Maresfield visitar seu sobrinho Ronald, sua esposa Euphonia e as filhas deles, Clarissa e Dillian. Levou-lhes um bolo de groselha que ela mesma havia preparado.

No domingo de manhã, a Sra. Whitaker foi à igreja. Sua paróquia era a de São Jaime Menor, que era um pouco “não pense nela como uma igreja, mas como um lugar onde pessoas com as mesmas idéias se encontram e são felizes” demais para que a Sra. Whitaker se sentisse completamente à vontade, mas gostava do vigário, o Reverendo Bartolomew, desde que ele não cismasse de tocar violão.

Após o seviço, pensou em contar-lhe que ela possuía o Santo Graal na sua sala de estar, mas resolveu não dizer nada.

Na segunda-feira de manhã, a Sra. Whitaker estava trabalhando no jardim dos fundos. Ela tinha uma pequena horta de ervas da qual muito se orgulhava: endro, verbena, hortelã, alecrim, tomilho e um grande canteiro com salsa.

 Ela estava ajoelhada, calçando grossas luvas verdes de jardinagem, arrancando ervas daninhas e pegando lesmas, as quais colocava num saco plástico. A Sra. Whitaker era muito compassiva quando se trava de lesmas. Costumava levá-las até a parte de trás da sua horta, que fazia divisa com a linha de trem, e as jogava por cima da cerca.

        



Escrito por Fada dos Contos às 03h22
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CAVALARIA - Parte II

- É o Santo Graal – disse a Senhora Whitaker. – É o cálice do qual Jesus bebeu na Última Ceia. Depois, na Crucificação, ele recolheu Seu precioso sangue quando a lança do centurião perfurou Seu flanco.

            A Sra. Greenberg fungou. Ela era pequena e judia e não aprovava coisas anti-higiênicas.

            - Eu não sabia disso – disse ela –, mas é muito bonito. Nosso Myron ganhou um igualzinho quando venceu o torneio de natação, só que tinha seu nome na lateral.

            - Ele ainda está com aquela moça simpática? A cabeleireira?

            - Bernice? Ah, sim. Estão até pensando em ficar noivos – disse a Sra. Greenberg.

            - Que bom – disse a Sra. Whitaker e pegou outro biscoito de amêndoa.

            A Sra. Greenberg fazia seus próprios biscoitos de amêndoas e os trazia toda sexta-feira alternada: pequenos biscoitos doces, marrom-claros, com uma amêndoa em cima.

            Falaram sobre Myron e Bernice, sobre o sobrinho da Sra. Whitaker, Ronald (ela não tinha tido filhos), e sobre a amiga de ambas, a Sra. Perkins, que estava no hospital descadeirada, coitadinha.

            Ao meio-dia, a Sra. Greenberg foi para casa e a Sra. Whitaker fez torradas com queijo para o almoço e, depois de comer, tomou suas pílulas: a branca, a vermelha e duas pequenas cor de laranja.

            A campainha tocou.

            A Sra. Whitaker atendeu. Era um jovem com cabelo pela altura do ombro, tão loiro que era quase branco, vestindo uma brilhante armadura prateada e uma sobreveste alva.

            - Olá – disse ele.

            - Olá – respondeu a Sra. Whitaker.

            - Estou a procurar.

            - Isso é bom – disse a Sra. Whitaker um tanto evasiva.

            - Posso entrar? – perguntou.

            A Sra. Whitaker meneou a cabeça negativamente.

            - Sinto muito, creio que não – disse ela.

            - Estou a procurar o Santo Graal – esclareceu o jovem. – Ele está aqui?

            - Você tem alguma identificação? – indagou a Sra. Whitaker. Ela sabia que não era prudente deixar estranhos não identificados entrarem em sua casa quando se tem idade e se vive só. Bolsas são esvaziadas e podem acontecer coisas ainda piores.

            O jovem voltou até o jardim de entrada. Seu cavalo, um enorme tordilho de assalto, tão grande quanto um percheron, de cabeça alta e olhos inteligentes, estava amarrado no portão do jardim da Sra. Whitaker. O cavaleiro remexeu no alforje e voltou com um rolo de pergaminho. Estava assinado pelo rei Arthur, rei de todos os bretões, e exortava todas as pessoas de qualquer condição ou posição social a saber que ali estava Galaad, Cavaleiro da Távola Redonda, e que ele estava numa Busca Justa, Altiva e Nobre. Havia um desenho do rapaz debaixo do texto. A semelhança não era pequena.

            A Sra. Whitaker assentiu com a cabeça. Ela estava esperando um cartãozinho com uma fotografia, mas aquilo era muito mais impressionante.

            - Creio que seja melhor você entrar – disse ela.

                       



Escrito por Fada dos Contos às 03h13
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CAVALARIA - Parte I

A Sra. Whitaker encontrou o Santo Graal; estava debaixo de um casaco de pele.

            Toda quinta-feira à tarde, a Sra. Whitaker caminhava até a agência do correio para receber sua pensão, embora suas pernas não fossem mais as mesmas, e, no caminho de volta, costumava parar na Loja Oxfam e comprar alguma coisinha para si.

            A Loja Oxfam vendia roupas usadas, quinquilharias, retalhos, bugigangas e uma grande quantidade de brochuras, tudo doado: despojos de segunda mão vindos, quase sempre, da faxina da casa de mortos. Todos os lucros iam para instituições de caridade.

            A loja era administrada por voluntários. A voluntária de serviço naquela tarde era Marie, dezesseis anos, um pouco acima do peso, vestindo um largo blusão cor de malva que parecia ter sido comprado na loja.

            Marie estava sentada no caixa com um exemplar da revista Mulher Moderna, preenchendo um questionário “Revele Sua Personalidade Escondida”. De vez em quando, ela dava uma olhada no final da revista e verificava os pontos dados à resposta A., B. Ou C. antes de se decidir sobre como responder aquela pergunta.

            A Sra. Whitaker andava indolentemente pela loja.

            Ela notou que ainda não tinham vendido a naja empalhada. Já estava lá havia seis meses juntando poeira; seus olhos de vidro fitando malignamente os cabides de roupas e a estante repleta de porcelana lascada e de brinquedos mastigados.

            A Sra. Whitaker acariciou sua cabeça quando passou por ela.

            Ela pegou dois romances da Mills & Boon da prateleira – Sua alma trovejante e Seu coração turbulento, um xelim cada – e considerou cuidadosamente comprar a garrafa vazia de Matheus Rose com uma cúpula de abajur decorativa antes de resolver que não tinha nenhum lugar para colocá-la. Pôs de lado um casaco de pele puído que recendia a naftalina. Debaixo dele, havia uma bengala e um exemplar manchado de água do Romance e lenda da cavalaria de A.R. Hope Moncrieff, que custava cinco pence. Próximo do livro, ao seu lado, estava o Santo Graal. Ele tinha uma pequena etiqueta redonda de papel na sua base, onde estava escrito, com caneta hidrocor, o preço: 30p.

            A Sra. Whitaker pegou a empoeirada taça prateada e a avaliou através das grossas lentes dos seus óculos.

            - Isto é de bom gosto – comentou com Marie, que por sua vez, deu os ombros. – Vai ficar simpático no meu consolo de lareira.

            Marie deu os ombros novamente.

            A Sra. Whitaker deu 50 pence a Marie, que lhe devolveu 10 pence de troco e um saco de papel marrom para colocar os livros e o Santo Graal. Então, ela foi até o açougue, vizinho à loja, e comprou um belo pedaço de fígado. Daí, foi pra casa.

            A parte de dentro da taça estava coberta de uma densa poeira marrom-avermelhada. A Sra. Whitaker lavou-a com muito cuidado e a deixou de molho em água morna com uma pitada de vinagre por uma hora. Então poliu-a com lustrador de metais até ficar brilhando e a colocou no consolo da lareira em sua sala de estar, onde ficou ao lado de um comovente cãozinho basset chinês e uma fotografia do seu finado marido, Henry, na praia de Frinton, em 1953.

            Ela tinha razão: ficou muito simpático.

            No jantar daquela noite, ela comeu o fígado frito com pedacinhos de pão e cebola. Estava muito bom.

            O dia seguinte era sexta-feira. Em sextas-feiras alternadas, a Sra. Whitaker e a Sra. Greenberg visitavam-se. Hoje era a vez de a Sra. Greenberg visitar a Sra. Whitaker. Sentaram-se na sala de estar e comeram biscoito de amêndoas e tomaram chá. A Sra. Whitaker pôs um torrão de açúcar no seu chá, mas a Sra. Greenberg usou adoçante, que ela sempre trazia na bolsa, numa caixinha de plástico.

- Aquilo ali é bonito – disse a Sra. Greenberg, apontando o Cálice. – O que é?

           

 



Escrito por Fada dos Contos às 03h08
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Neve, Vidro e Maçãs (PARTE V)

Ele cavalgava com uma pequena comitiva, grande o suficiente para defendê-lo, pequena o suficiente para que outro monarca - eu, no caso - não o encarasse como uma ameaça potencial.

Eu fui prática: pensei na aliança de nossas terras, pensei no Reino se estendendo das florestas até o mar, ao sul; pensei no meu amor louro e barbado, morto há oito anos; e, à noite, fui até o quarto do Príncipe. Eu não sou inocente, embora meu marido anterior, que foi meu rei, tenha sido realmente meu primeiro amante, não importa o que digam. A princípio, o Príncipe pareceu excitado. Ele me fez tirar a roupa e ficar parada em frente à janela aberta, longe do fogo, até minha pele ficar arrepiada e fria como pedra. Então ele pediu que eu me deitasse de costas, com as mão cruzadas sobre meus seios e meus olhos bem abertos - mas fixos nas vigas do teto. Ele me disse para não me mover, e para respirar o mais imperceptivelmente possível. Implorou que eu não dissesse nada. Abriu minhas pernas.

E então entrou em mim.

Quando ele começou a empurrar, senti meus quadris se levantarem, senti-me começar a me encaixar nele, ação por ação, empurrão por empurrão. Gemi. Não pude evitar.

Sua masculinidade escorregou para fora de mim. Eu a busquei e toquei, uma coisa minúscula e escorregadia.

- Por favor - ele disse, suavemente - você não deve se mexer nem falar. Só fique aí nas pedras, tão fria e tão bonita...

Eu tentei, mas ele havia perdido qualquer que fosse a força que o mantinha viril, e, um pouco mais tarde, deixei o quarto do Príncipe, suas maldições e lágrimas ainda ecoando em meus ouvidos.

Ele partiu cedo na manhã seguinte, com todos os seus homens, e eles cavalgaram para dentro da floresta.

Imagino seus quadris agora, enquanto ele cavalgava, um nó de frustração na base da sua masculinidade. Imagino seus lábios pálidos pressionados juntos, tão estreitamente. Então imagino sua pequena tropa cavalgando pela floresta, chegando finalmente ao jazigo de vidro e cristal da minha enteada. Tão pálida. Tão fria. Nua sob o vidro, pouco mais que uma garotinha, e morta. Na minha imaginação, quase posso sentir o repentino enrijecer do membro dele, dentro das calças, e vislumbrar a luxúria que o tomou então, as orações que murmurou sob a respiração, agradecendo sua boa sorte. Eu o imagino negociando com os homenzinhos peludos, oferecendo-lhes ouro e especiarias em troca do adorável cadáver no monte de cristal.

Eles aceitaram o ouro de boa vontade? Ou olharam para aqueles homens em cima dos seus cavalos, com suas espadas afiadas e suas lanças, e perceberam que não tinham alternativa?

Não sei. Eu não estava lá. Não estava espiando. Só posso imaginar...

Mãos, removendo os blocos de vidro e quartzo que cobriam seu corpo frio.

Mãos, gentilmente acariciando seu rosto frio, movendo seu braço frio, regozijando-se de encontrar o corpo ainda fresco e maleável.

Ele a possuiu ali, na frente de todos? Ou carregou-a até um lugar recluso antes de montá-la? Não sei dizer.

Ele removeu o pedaço de maçã da garganta dela? Ou seus olhos se abriram lentamente, enquanto ele estocava dentro do seu corpo? Será que aquela boca se abriu, seus lábios vermelhos se separaram, aqueles dentes amarelos e afiados se fecharam no pescoço dele, enquanto o sangue, que é vida, escorria pela garganta dela abaixo, levando o pedaço de maçã, minha posse, meu veneno?

Eu imagino; não sei.

O que sei é que fui acordada no meio da noite pelo coração dela, batendo e pulsando mais uma vez. Sangue salgado pingou no meu rosto, vindo de cima. Eu me sentei. Minha mão queimava e pulsava como se eu tivesse acertado a base do meu polegar com uma pedra.

Houve uma batida na porta. Tive medo, mas sou uma rainha, e não o demonstrei. Abri a porta.

Primeiro os homens dele entraram em meu aposento e ficaram em volta de mim, com suas espadas afiadas e suas longas lanças. Então ele entrou, e cuspiu no meu rosto.

Finalmente, ela entrou no quarto, como tinha feito logo que me tornei rainha, e ela era uma criança de seis anos. Ela não havia mudado. Não realmente.

Ela puxou o barbante onde o seu coração estava pendurado. Tirou as frutinhas secas, uma a uma; os bulbos de alho, agora ressecados depois de tantos anos.

Então ela pegou o seu pertence, seu coração pulsante - pequeno, não maior do que o de uma cabra ou filhote de urso - enquanto ele pulsava e despejava seu sangue na mão dela.

Suas unhas deviam ser tão afiadas quanto vidro; ela abriu o peito com elas, correndo-as sobre a cicatriz púrpura. Seu peito se escancarou, de repente, aberto e sem sangue. Ela lambeu seu coração uma vez, enquanto o sangue corria pelas suas mãos, e empurrou-o para o fundo do peito.

Eu a vi fazê-lo. Eu a vi fechar a carne do peito mais uma vez. Vi a cicatriz púrpura começar a desaparecer.

Seu príncipe olhou, brevemente constrangido, mas colocou seu braço em volta dela e ficaram lado a lado, esperando.

Ela continuou fria, e a exuberância da morte estava nos seus lábios, mas sua luxúria não foi de modo algum apaziguada.

Eles me disseram que iriam se casar, e que os reinos seriam unidos.

Disseram-me que eu estaria com eles no dia da cerimônia.

Está começando a ficar quente aqui.

Disseram às pessoas coisas ruins sobre mim; um pouco de verdade para dar sabor ao prato, mas misturada com muitas mentiras.

Fui amarrada e presa numa pequena cela de pedra sob o palácio, ficando lá por todo o outono. Hoje eles mandaram me buscar; tiraram-me os farrapos, lavaram-me a sujeira, rasparam-me o cabelo e o púbis, e sujaram minha pele com gordura de
ganso.

A neve caía enquanto me carregavam; dois homens em cada braço e em cada perna, completamente exposta, aberta e fria, através da multidão da meia-estação, e me trouxeram para este forno.

Minha enteada ficou lá com o príncipe. Ela me observava na minha indignidade, mas não dizia nada.

Quando me jogaram lá dentro, escarnecendo de mim, vi um floco de neve pousar na sua face branca, e ficar lá sem derreter.

Fecharam a porta do forno atrás de mim. Está esquentando aqui, e lá fora estão cantando, festejando e batendo nos lados do forno.

Ela não ria, zombava ou falava. Não me olhou com desprezo, nem se virou.

Mas olhava para mim, e por um momento me vi refletida em seus olhos.

Não vou gritar. Não vou dar a eles esta satisfação. Terão meu corpo, mas minha alma e minha história são minhas, e vão morrer comigo.

A gordura de ganso começa a derreter e reluzir na minha pele. Eu não devo fazer nenhum som. Não devo mais pensar nisso.

Devo pensar no floco de neve no rosto dela. Penso no seu cabelo negro como carvão, seus lábios vermelhos como sangue, sua pele, branca de neve.

NEIL GAIMAN



Escrito por Fada dos Contos às 02h05
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Neve, Vidro e Maçãs (PARTE IV)

Eu cobri o espelho com a pele de corça, e disse a ele que cuidaria pessoalmente para que a floresta voltasse a ser segura. Eu tinha que fazê-lo, apesar de isso me aterrorizar. Eu era a rainha. Uma mulher tola teria então ido à floresta e tentado capturar a criatura; mas eu já havia sido tola uma vez, e não tinha
vontade nenhuma de sê-lo de novo.

Passei algum tempo com livros antigos, pois eu sabia ler um pouco. Passei algum tempo com as ciganas (que atravessavam nosso país pelas montanhas para o sul, ao invés de passar pela floresta, para o norte e oeste). Eu me preparei, e obtive as coisas de que precisaria, e quando as primeiras neves começaram a cair, eu estava pronta.

Nua, eu fiquei, e sozinha na mais alta torre do palácio, um lugar aberto ao céu. O vento arrepiava meu corpo; minha pele ficou como a do ganso depois de depenado. Eu carregava uma bacia de prata, e uma cesta onde havia colocado uma faca e um alfinete de prata, alguns tenazes, um manto cinzento e três maçãs
verdes.

Eu os pus no chão e fiquei ali, despida, na torre, humilde diante do céu da noite e do vento. Se algum homem tivesse me visto parada ali, eu teria atraído seus olhos; mas não havia ninguém para espiar. Nuvens cruzavam o céu, escondendo e descobrindo a lua minguante.

Peguei a faca de prata e fiz um talho no meu braço esquerdo - uma, duas, três vezes. O sangue pingou na bacia, a cor escarlate parecendo negra à luz da lua.

Adicionei o pó do vial que pendia do meu pescoço. Era um pó marrom, feito de ervas secas e da pele de um certa espécie de sapo, além de algumas outras coisas. Ele tornou o sangue mais espesso, impedindo-o de coagular.

Peguei as três maçãs, uma a uma, e furei suas peles suavemente com meu alfinete de prata. Então coloquei as maçãs na bacia de prata, e as deixei lá enquanto os primeiros pequenos flocos de neve do ano caíam lentamente na minha pele, nas maçãs e no sangue.

Quando a luz do amanhecer começou a iluminar o céu, eu me cobri com o manto cinza, e peguei as maçãs, agora vermelhas, na bacia, uma a uma, colocando cada uma na minha cesta com tenazes de prata, tomando cuidado para não tocá-las. Não havia restado nada do meu sangue ou do pó marrom na bacia, a não ser um resíduo negro, como verdete.

Enterrei a bacia no chão. Então joguei um encanto de glamour nas maçãs (como havia feito, anos antes, na ponte, comigo mesma), de modo que elas se tornaram, indubitavelmente, as maçãs mais maravilhosas do mundo; e o brilho carmim de suas cascas era da mesma cor cálida de sangue fresco. Puxei o capuz do meu manto para que cobrisse meu rosto, e levei fitas e lindos adornos de cabelo comigo, colocando-os sobre as maçãs na cesta de junco, e caminhei sozinha pela floresta até chegar ao lugar em que ela morava: um alto penhasco de arenito, entremeado por grandes cavernas que penetravam profundamente nas paredes de pedra.

Havia árvores e pedras redondas ao redor, e eu andei quieta e suavemente de árvore em árvore, sem perturbar um único graveto ou folha caída. Finalmente encontrei um lugar para me esconder, e esperei, e observei.

Depois de algumas horas, um grupo de anões rastejou para fora de uma das cavernas - homenzinhos feios, deformados e cabeludos, os velhos habitantes do país, que são vistos raramente agora.

Eles desapareceram no bosque, e nenhum deles me viu, apesar de um deles ter parado para urinar contra a rocha atrás da qual eu me escondia. Eu esperei. Ninguém mais saiu.

Fui até a entrada da caverna e gritei para dentro: "Olá?", numa voz rachada de velha.

A cicatriz perto do meu polegar latejou e pulsou quando ela veio da escuridão em direção a mim, nua e só. Ela estava com treze anos de idade, minha enteada, e nada maculava a alvura perfeita da sua pele, a não ser a lívida cicatriz do lado esquerdo do seu peito, onde seu coração havia sido arrancado dela há tempos atrás.

O interior das suas coxas estava manchado com uma líquido negro imundo. Ela me olhou atentamente, escondida, como eu no meu manto. Olhava para mim de um modo faminto.

- Fitas, senhora - grasnei - lindas fitas para o seu cabelo...

Ela sorriu e acenou para que eu me aproximasse. Um puxão; a cicatriz na minha mão me puxava para ela. Eu fiz o que tinha planejado, mas fiz mais prontamente do que achava que faria: soltei minha cesta e guinchei como a velha mascate que fingia ser, e corri.

Minha capa cinzenta era da cor da floresta, e eu fui rápida; ela não me pegou. Tomei o caminho de volta ao palácio.

Eu não vi como foi. Todavia, posso imaginá-la retornando, frustrada e faminta, à sua caverna, e encontrando minha cesta caída no chão. O que ela fez?

Eu gosto de pensar que primeiro ela brincou com as fitas, enrolou-as nos seus cabelos negros, no seu pescoço pálido ou na sua fina cintura. E então, curiosa, tirou o pano que cobria a cesta para ver o que mais havia lá; e viu as maçãs tão vermelhas. Seu aroma era de maçãs frescas, naturalmente; mas também cheiravam a sangue. E ela estava faminta. Eu a imagino pegando uma das maçãs, pressionando-a contra a face, sentindo a fria suavidade contra a pele. E abrindo a boca e mordendo-a profundamente...

Quando cheguei aos meus aposentos no palácio, o coração que pendia da viga do teto, junto com as maçãs, os presuntos e as salsichas, tinha parado de bater. Pendia dali, quieto, sem movimento ou vida, e me senti segura mais uma vez.

Naquele inverno, a neve foi alta e profunda, e começou a derreter tardiamente. Todos nós estávamos famintos quando a primavera chegou. A Feira da Primavera foi um pouco melhor nesse ano. O povo da floresta ainda era pouco, mas estava lá, e haviam viajantes das terras além da floresta. Vi os homenzinhos cabeludos da caverna na floresta comprando e barganhando por pedaços de vidro, e lupas de cristal e de quartzo. Pagavam pelo vidro com moedas de prata - o espólio das depredações da minha enteada, não tenho dúvida. Quando não havia mais o que eles comprarem, o povo da cidade corria às suas casas, voltando com seus cristais da sorte, e, em alguns casos, com pedaços inteiros de vidro.

Eu pensei brevemente em matá-los, mas não o fiz. Enquanto o coração permanecesse pendurado, silencioso, imóvel e frio, na viga do meu quarto, eu estaria segura, e também o povo da floresta, além do povo da cidade. Meu vigésimo-quinto ano veio, e minha enteada tinha comido o fruto envenenado há dois invernos, quando o Príncipe veio ao meu palácio. Ele era alto, muito alto, com frios olhos verdes e a pele morena do povo além das montanhas.





Escrito por Fada dos Contos às 01h54
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Neve, Vidro e Maçãs (PARTE III)

- Eu venho a você porque você é sábia - continuou - Quando você era criança, encontrou um potro desgarrado olhando numa poça de tinta; quando era uma donzela, encontrou um infante perdido que havia vagado para longe de sua mãe, olhando naquele seu espelho. Você sabe segredos, e consegue encontrar coisas perdidas. Minha rainha - ele perguntou – o que está levando o povo da floresta? No próximo ano não haverá Feira da Primavera. Os viajantes de outros reinos se tornaram escassos, e o povo da floresta está quase desaparecido. Outro ano como este, e nós deveremos morrer de fome.
Ordenei à minha serva que trouxesse o meu espelho. Ele era simples, um disco devidro polido incrustado em prata, que eu guardava envolto numa pele de corça,dentro de uma arca em meu quarto.

Trouxeram-no para mim, e eu olhei.

Ela agora estava com doze anos, e não era mais uma criança. Sua pele ainda era pálida, seus cabelos e olhos negros como carvão, seus lábios vermelhos como sangue. Ainda usava as roupas com que tinha deixado o castelo pela última vez - a blusa, a saia - apesar de elas estarem já muito gastas e remendadas. Sobre elas, usava uma capa de couro, e em vez de botas, usava sacos de couro, amarrados com cordões, em seus pés minúsculos. Ela estava parada na floresta, atrás de uma árvore.

Enquanto eu olhava, com o olho da mente, vi-a correr e saltitar, passando de uma árvore para outra, como um animal, um morcego ou um lobo. Ela estava seguindo alguém.

Era um monge. Ele usava roupas de saco, e seus pés estavam nus, endurecidos e cheios de crostas. Sua barba e tonsura estavam crescidos e mal-aparados.

Ela o observava de trás das árvores. Finalmente ele parou para passar a noite, e começou a fazer um fogo, empilhando gravetos, e quebrando um ninho de torno para usar como acendedor. Ele tinha uma caixinha de metal na bata, e bateu a pedra de acender no aço até as fagulhas iniciarem o fogo. Havia dois ovos no ninho que encontrara, e ele os comeu, crus e sem tempero. Não deve ter sido uma refeição muito satisfatória para um homem tão grande. Ele sentou ali à luz da fogueira, e ela saiu do seu esconderijo. Agachou-se do outro lado do fogo e olhou fixamente
para ele. Ele sorriu afetadamente, como se não visse um outro ser humano há muito, e com um gesto chamou-a para perto dele.

Ela se levantou e andou em volta do fogo, parando à distância de um braço. Ele remexeu na roupa até achar uma moeda - uma pequena moeda de cobre - e jogou-a para ela. Ela pegou-a e assentiu, indo até ele. Ele puxou a corda da cintura, e sua batina ondulou, abrindo-se. Seu corpo era tão peludo quanto o de um urso.
Ela o empurrou para trás, no musgo; uma mão crispada, como uma aranha, caminhou pelo emaranhado de pelos, até fechar-se no membro. A outra mão traçou um círculo em volta do mamilo esquerdo. Ele fechou os olhos, e tateou com uma mão enorme
sob a saia dela. Ela desceu com a boca para o mamilo que estava acariciando, sua pele suave e branca contra o corpo escurecido dele.

Ela cravou profundamente seus dentes no peito dele. Os olhos dele se abriram, depois se fecharam de novo, e ela bebeu. Ela o derrubou e se alimentou. Enquanto o fazia, um fino líquido enegrecido começou a pingar por entre as suas pernas.

- Você sabe o que está afastando os viajantes de nossa cidade? O que está acontecendo ao povo da floresta? - perguntou o Lorde da Feira.




Escrito por Fada dos Contos às 01h35
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